O núcleo da apresentação do Dr. Marín residiu na necessidade urgente de transformar o diagnóstico clínico. Segundo o especialista, o modelo atual, baseado excessivamente no Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5), atua como um “catálogo de manifestações do sofrimento” que frequentemente ignora a raiz do problema.
“A pergunta ‘o que te acontece’ só faz sentido nas urgências hospitalares”, afirmou Marín. No âmbito da psicoterapia profunda, a pergunta fundamental deve ser “o que te aconteceu?”. Para o psiquiatra, sintomas como ansiedade, depressão, transtornos alimentares ou até doenças físicas como a fibromialgia, são na verdade “cicatrizes ou feridas abertas” de experiências traumáticas, muitas vezes ocorridas na infância e silenciadas pelo ambiente.
Durante a sua intervenção, o Dr. Marín apresentou vários casos clínicos da sua própria consulta —denominados metaforicamente como “uma manhã na consulta”— para ilustrar como o trauma relacional precoce e o abuso sexual infantil se escondem por trás de diagnósticos diversos.
“Não há psicoterapia para o TDAH ou a depressão em si mesmos; fazemos psicoterapia do conflito e das sequelas”
Citou o caso de um menino de 12 anos diagnosticado erroneamente com TDAH e negativismo desafiador, polimedicado com antipsicóticos e amarrado a camas hospitalares, cuja verdadeira origem era uma história de negligência e violência nos seus primeiros anos de vida. “Não há psicoterapia para o TDAH ou a depressão em si mesmos; fazemos psicoterapia do conflito e das sequelas da experiência traumática”, sentenciou o doutor.
Os números apresentados durante a conferência foram contundentes: enquanto o abuso sexual infantil na população geral de Espanha ronda os 20-25%, na população clínica (aqueles que procuram consulta) os números disparam para mais de 40%, chegando a superar os 70% em casos de psicose ou transtornos graves. Marín advertiu que se um profissional não tem conhecimento destes antecedentes em pelo menos metade dos seus pacientes, é provável que “não esteja a explorar adequadamente” e esteja a realizar o que chamou de “psicoterapia da M-40”: dar voltas ao problema sem nunca chegar ao centro.
Um dos momentos mais tensos e reflexivos da jornada ocorreu quando o diretor de Formação Psicoterapia abordou o medo dos profissionais de aprofundar o trauma por receio de “descompensar” o paciente. Utilizando a analogia de “abrir o melão”, explicou que o medo não costuma ser do paciente, mas sim do terapeuta que não sabe o que fazer com a resposta.
“Não explorar a experiência traumática é, neste momento, uma negligência profissional”
“Não explorar a experiência traumática é, neste momento, uma negligência profissional”, sublinhou, mencionando que em países como a Escócia ou em regiões dos Estados Unidos, evitar esta investigação já é considerado uma falta ética grave. Para Marín, o paciente “sabe” o que lhe aconteceu —o que ele denomina “o sabido impensado”—, mas carece das palavras ou da permissão social para o integrar. O papel do terapeuta é, portanto, ajudar a que essa ferida aberta se transforme numa cicatriz com a qual se possa viver.
Para além do psicológico, a notícia destaca o componente biológico do trauma. O Dr. Marín explicou que as experiências traumáticas intensas em idades precoces não só geram memórias dolorosas, como alteram fisicamente o desenvolvimento cerebral.
“A psicoterapia deve aspirar à integração neurobiológica, não apenas à gestão de sintomas”
Estas alterações nas conexões neuronais mantêm-se vigentes durante décadas, provocando que o sistema imunitário e endócrino responda de maneira inadequada a estímulos presentes. Isto explicaria a alta correlação entre trauma infantil e doenças autoimunes como o lúpus ou a fibromialgia na vida adulta. “A psicoterapia deve aspirar à integração neurobiológica, não apenas à gestão de sintomas”, acrescentou.
Dirigindo-se especialmente aos psicólogos recém-graduados, o Dr. Marín advertiu contra a “busca obsessiva de ferramentas técnicas” ou o que chamou de “TDAH do recém-graduado”. Recordou que a técnica ou ferramenta (como o EMDR, a psicanálise ou a terapia cognitivo-comportamental) representa apenas entre 5% e 11% do sucesso terapêutico. O que realmente cura é a relação terapêutica e uma base teórica sólida que permita compreender “como chegamos até aqui”.
A jornada concluiu com um convite à coragem clínica: legitimar o medo do paciente, oferecer segurança e, sobretudo, não deixar de perguntar. O Dr. José Luis Marín deixou claro que o futuro da saúde mental passa por um compromisso inadiável com a verdade histórica do sujeito, por mais dolorosa que esta seja.
O que é o “O sabido impensado”? Conceito chave na apresentação do Dr. Marín, refere-se àquele conhecimento primitivo que o paciente possui sobre o seu trauma, mas que não sabe como verbalizar nem pensar. José Luis Marín conclui a apresentação afirmando que a terapia consiste em transformar esse saber mudo num relato partilhado que permita a cura.